Diario Pernambucano – Falsiê, mas sem farsas.

Aluno da UFPE detido por suposto assalto diz que processará vítima por calúnia: “foi só um estupro!”

Pela repórter especial @Tergiversa.

Mais uma denúncia de estupro sofrido por aluna da UFPE circula nas redes sociais. O crime teria ocorrido na manhã desta sexta-feira (6) no local conhecido como “Terra de Ninguém”, embaixo do viaduto da BR-101 que corta a universidade. O apelido se dá justamente pela negativa da instituição de ensino em reconhecer a área, que fica entre a reitoria e o resto do campus, como de sua responsabilidade de atuação. Linhas de ônibus que servem à Universidade podem exigir que estudantes cruzem o espaço.

viaduto-estupro-ufpe

Contatada pela reportagem, a vítima, que solicitou anonimato para sua segurança, afirmou que foi humilhada tanto pelo ato do estuprador quanto pelo comportamento dos policiais procurados para o registro da ocorrência. “Mal consegui contar o que aconteceu devido às interrupções que faziam. Depois de saberem que o estuprador era aluno da universidade, eles pareciam mais dispostos a ver se minha ‘ficha moral’ estava limpa do que saber de detalhes que permitissem sua captura. Me senti como autora ou incentivadora do crime ou que eles eram um tipo de advogados de defesa daquele monstro”, relata. “Além de todos os ferimentos, do sofrimento e a opressão do julgamento moral, agora, entendo claramente os motivos que fazem com que mulheres estupradas não denunciem seus casos e permaneçam caladas, sofrendo aquilo que os criminosos jamais experimentarão.”, disse a estudante.

O suspeito foi preso, mas não teve a identidade divulgada pela polícia até o momento. “A gente precisa preservar a identidade do acusado”, disse o delegado. “Afinal, ele não foi judicialmente condenado e isso pode estragar o futuro do rapaz.” A vítima gravou a oitiva policial com seu celular e autorizou sua divulgação. Reproduzimos a transcrição a seguir.


Delegacia de Polícia, 11h

Policial:  Pode sentar aí, viu? Ele vai lhe ouvir.

Vítima:  …

Escrivão:  Que mau humor! O povo esquece que policial não é robô. A gente também é cidadão, viu? Não custa dar um sorrisinho, ser educada, dizer bom dia…

Vítima:  Bom dia.

Escrivão:  Então, o que foi que aconteceu? Você me conta e eu pergunto o que for importante. Eu sei o que é importante.

Vítima:  Eu… fui estuprada ali na saída da universida…

Policial:  Peraí! Universidade? Foi dentro ou fora do campus? Se foi dentro do campus, a senhora vai ter que sair daqui, é problema da Polícia Federal. A gente não pode cuidar disso.

Escrivão:  Estuprada? Essa é uma palavra bem pesada. Tem certeza do que tá falando, né?

Vítima:  Tenho certeza de que fui estuprada, sim, claro! E foi fora do campus, entre a saída da Federal e o ponto de ônib…

Escrivão:  “O meliante fazia tocaia embaixo do viaduto e atacou a…”

Vítima:  Ele não fazia tocaia, não. Ele me seguiu.

Escrivão:  Então, a moça sabia que estava sendo seguida e, mesmo assim, foi pra baixo do viaduto com o meliante?

Policial:  Você foi pra baixo do viaduto com um desconhecido? Assim fica difícil de acreditar na sua história.

Vítima:  Ele também estava indo embora do campus…

Escrivão:  Ele também é aluno? Da UFPE? E lhe estuprou?

Policial:  Como assim? Vai dizer que você não conhecia o jovem? Tudo da mesma universidade…

Vítima:  Eu não o conheço, mas sei que ele é do mesmo curso que eu, a gente estuda no mesmo andar.

Escrivão:  E você nunca saiu com ele? Foi para a mesma festa? Ele te pagou uma cerveja, vocês conversaram e, quem sabe, rolou uma paquera?

Vítima:  Nunca.

Policial:  Nunca ficou de papo com ele no intervalo das aulas?

Vítima:  Nunca!

Escrivão:  Nunca pediu cola? Perguntou a data de uma prova?

Vítima:  Ele já me perguntou sobre reposição de aula, mas ficou me secando de um modo tão doente que me afastei sem nem responder. Que ódio!

Policial:  Então você conhecia o rapaz! Eu sabia! A história tava mesmo mal contada…

Escrivão:  O que você estava vestindo?

Vítima:  Esta calça jeans cortada e esta mesma blusa, que ele rasg…

Escrivão:  O que você estava vestindo no dia em que foi puxar papo com o rapaz e ele te olhou?

Policial:  Agora, a gente não pode mais nem admirar mulher bonita em paz. Vai que nos acusam de assédio…

Vítima:  Eu não consigo ver a importância disso para a minha denúncia de estup…

Policial:  Não me leve a mal, não, viu, minha filha? Mas vou lhe dizer uma coisa. Esse seu colega aí, com quem a senhora tá dizendo que se roçou no mato, ele deve ser um menino que tá estudando e tem um futuro pela frente. Ele que não pode ser julgado, assim, sem mais nem menos, apenas por ceder a uma provocação… Pense na sua responsabilidade. Você pode destruir a vida de uma pessoa! Ele pode até ser um pai de família e a senhora pode deixar uma criança alguém para sustentá-la.

Vítima:  Ele botou um canivete no meu pescoço e disse que ia retalhar a minha cara inteirinha se eu não fizesse tudo o que ele mandasse!

Escrivão:  Mas você disse que o conhecia e tudo. Se ele quisesse dar umazinha, por que ele não buscaria uma desconhecida? Eu não tô dizendo que é mentira, não! Mas essa sua história não faz muito sentido, sabe?

Policial:  Você lutou? Reagiu? Apanhou?

Vítima:  Eu só queria preencher a guia de comunicação de estupro para ter acesso à pílula do dia seguinte, pode ser?

Escrivão:  Você tem direito de preencher a guia como você quiser, princesa, mas eu só queria saber se o seu amigo…

Vítima:  Ele não é meu amigo.

Policial:  Conhecido…

Vítima:  Eu nem sei o nome daquela criatura.

Escrivão:  Eu só queria saber se esse seu colega não é um pai de família.

Vítima:  Duvido, ele é calouro.

Policial:  Já frequentou a igreja? Vai que ele é um homem fiel a Deus.

Vítima:  Ele não é de Deus de jeito nenhum, meu senhor!

Escrivão:  Ele pode se arrepender. E se for sincero, vai ser perdoado por Jesus.

Vítima:  Mas não por mim…

Policial:  Aí vai da consciência de cada um, né? Jesus ensinou que…

Vítima:  O senhor pode me dar a guia?

Escrivão:  As pessoas acham que policial é robô. Custa pedir por favor?

Vítima:  O senhor pode me dar a guia para eu preencher e ir embora, POR FAVOR?

Policial:  Agoooora…

Escrivão:  Olha, a guia de comunicação de estupro acabou, e a gente vende umas xerox dela aqui.

Policial:  Mas tem o custo da cópia, o trabalho de ir e voltar… Sem falar que isso nos afasta do serviço.

Escrivão:  A gente cobra cinco reais.

Policial:  Que é pra você não ter que ir em outra delegacia, contar toda a sua história de nov…

Vítima:  Mas o desgraçado também roubou minha bolsa, celular e até o cartão VEM, com dez reais, que eu tinha na carteira! Não tenho nem como voltar pra casa!

Escrivão:  É.. Aí ficou sério.

Policial:  Crime contra o patrimônio. Coisa de bandido.

Escrivão:  Roubou a amiga em plena luz do dia! Não deixou nem o da a passagem…

Policial:  O povo perdeu mesmo a noção. Por que você não contou direito o que aconteceu?

Escrivão:  Eu fico incrível com a ousadia da bandidagem de hoje. Roubar colega em plena luz do dia!

Policial:  Ele fugiu em que direção? Tava vestindo o quê? Se tu falar logo, a gente ainda pode pegá-lo.

Escrivão:  Não se preocupe, moça, que isso dá prisão em flagrante.

Policial:  Ele vai ter o que é dele.


Nos últimos dez anos, ao menos dez casos de violência sexual contra alunas ou nas dependências da UFPE foram noticiados pela imprensa local:

lala

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Publicado por em 6 novembro 2015. Arquivado em Mauritsstad, Notícias dos Leitores, Últimas. Você pode acompanhar quaisquer respostas a esta entrada através do RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

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